14 de set de 2010

NA SENDA DO SUPREMO

Por Aristein Woo
Artigo publicado na revista Terceiro Milenium | MAIO/2010


Imagem daqui.

Cada vez mais o homem se volta para a busca de um desenvolvimento amplo e integrado que inclui saúde, qualidade de vida e o encontro com o sagrado, o espiritual. Nessa busca, cada um empreende sua jornada por caminhos diversos. Uma dessas sendas é o Tai Chi, que significa “o supremo” e que surgiu na China do século XVII entre as milícias camponesas com o intuito reforçar as defesas. Estima-se que somente naquele país, cerca de 200 milhões de pessoas façam hoje o Tai Chi.

O Mestre Moo-Shong Woo, fundador da Praça da Harmonia Universal, em Brasília, onde o Tai Chi é ensinado há 35 anos, diz que praticar essa arte “é como nadar no seco”. Os movimentos lentos, a respiração serena e a harmonia com a natureza fazem da prática um aliado na busca pela paz interior e permitem inúmeros benefícios físicos, emocionais e espirituais, observados inclusive pela comunidade científica.


O Tai Chi Chuan segue a base da medicina chinesa, diretamente ligada à energia interior chamada chi. Assim, os movimentos buscam equilibrar essa energia, aumentando o poder interior. Há séculos era conhecido como “a arte marcial das treze posturas”. Com o passar do tempo, vários estilos se desenvolveram e hoje existem seqüências com até centenas de movimentos. A mais simples, de treze, é formada por partes simétricas que se repetem na direção dos quatro pontos cardeais e dos quatro pontos colaterais, formando uma espécie de Rosa dos Ventos, e marca a teoria dos Cinco Elementos e dos Oito Trigramas da filosofia chinesa.

Das cinco escolas existentes duas são as mais praticadas. O estilo Chen, mais antigo, deriva da família de Chen Wangting, do final da dinastia Ming (século XVII). Um descendente, Chen Changxing (1771-1853), só ensinava a arte para membros da própria família. Yang Luchan (1789-1872), um dedicado criado da família Chen, conseguiu aprender, observando os treinos às escondidas. O mestre percebeu a habilidade do jovem e resolveu ensinar a Yang tudo que sabia. Foi Luchan quem fundou o estilo Yang e começou a popularizar o Tai Chi nas cidades e o neto dele, Yang Chengfu (1883-1936), ampliou esta divulgação na China e no mundo. As outras escolas são as dos estilos Wu, Hao e Sun. Praticado no início apenas por pessoas simples, o Tai Chi Chuan atualmente faz parte das artes marciais milenares difundidas pelo planeta em todas as camadas sociais.

Na China a Comissão Estatal de Cultura Física e Desportos do governo comunista criou, em 1956, a série de 24 movimentos, fácil de ser praticado em grandes grupos nas praças públicas. Conhecida como Tai Chi de 24 movimentos é a base do que se pratica na Praça da Harmonia Universal e é muito difundido no mundo inteiro. Embora enfatize as formas simplificadas, toda a seqüência permite um equilíbrio físico e mental e pode ser feito em pouco mais de cinco minutos, tempo suficiente até para os que mantêm uma agenda mais cheia.

Waysun Liao, autor do Livro Tai Chi Classics, afirma que “seguidores do Tai Chi acreditavam que o povo deveria se disciplinar para ser espiritual, saudável, bom e inteligente; ser responsável e auxiliar os outros para atingir graus maiores de desenvolvimento; amar a verdade; lutar ferozmente contra a imoralidade e a injustiça e proteger os necessitados e os fracos”. E muito embora o Tai Chi tenha tido seus primórdios marciais, mestres e seguidores chineses mantinham-se nas montanhas levando uma vida monástica com o objetivo de manter a arte pura. Meditavam e praticavam diariamente para manter bem o espírito, a mente e através da disciplina do corpo elevar a consciência. Nos dias de hoje, permanecem os mesmos princípios para os que buscam essa elevação por meio do treinamento.

Pelo segundo ano consecutivo, o Instituto de Formação em Taijiquan de Brasília, IFTB, oferece cursos regulares para os que estão interessados em aprender as técnicas e repassá-las a outras pessoas. Observa-se na constituição das turmas que, embora venham de caminhos diferentes, com idades das mais variadas, de múltiplas áreas do conhecimento, todos convergem para uma interação harmoniosa em busca do autodesenvolvimento pela prática do Tai Chi Chuan.

De acordo a teoria do Tai Chi, o corpo humano é capaz de desenvolver suas habilidades além do potencial. Para atingir tais níveis é necessário manter os poderes do Yin, negativo-repouso, e Yang, positivo-ação, equilibrados, em seu movimento natural, e desde este ponto de vista correlacionar as forças construtivas ou destrutivas para que a essência da vida se materialize. Os movimentos da prática possibilitam essa correlação, encoraja a autonomia individual e demonstra que é possível atingi-los por meio de um modo de vida natural e moderado.

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