22 de out de 2010

A ETERNA MUTAÇÃO

Por Aristein Woo
Artigo Publicado na revista TerceiroMilênio | OUT/2010

Os praticantes de Tai Chi Chuan se familiarizam muito cedo com o conceito da mutação. Tanto os movimentos dos estilos Chen e Yang, quanto os do Chansijin, trazem intrínsecos a filosofia da mudança interna e externa, lembrando Confúcio - considerado um dos maiores estudiosos do I Ching de todos os tempos - para quem nada era permanente, só a mudança.

O I Ching, conhecido no ocidente como O Livro das Mutações, é considerado uma das obras mais antigas editadas pela humanidade, com cerca de 5000 anos. Com o passar dos séculos, a versão escrita foi ampliada com comentários sem, no entanto, permitir que os fundamentos filosóficos originais se perdessem no tempo. Por volta do século IV a.C., o livro recebeu a última inclusão na forma de comentários, feitos por Confúcio.


A unidade básica do I Ching é formada por duas linhas: uma completa e outra interrompida. A linha completa representa o Yang e a interrompida, o Yin, as duas polaridades complementares que para os orientais fundamentam todo o Universo. Essas “forças” estão agrupadas em três linhas que formam o trigrama (kua, em chinês) onde a linha superior representa o Céu, a inferior a Terra e a linha central, o Homem, numa alusão ao princípio mais elementar do Taoísmo, onde tudo é formado por Yin e Yang, tendo o homem entre o Céu e a Terra.

O Livro das Mutações é peça fundamental na construção de toda a cultura chinesa. O I Ching permeia desde as artes até a estratégia militar e a filosofia. Supõe-se que a "Arte da Guerra" e o "Tao Te Ching", por exemplo, tenham sido inspirados pelos ensinamentos contidos na obra. É muito comum encontrar as formas octogonais com trigramas estampados nos vasos e móveis chineses. Há ainda os que encaram o I Ching como um oráculo a ser consultado para obter orientações quanto às questões do dia-a-dia relacionadas ao trabalho ou à família, por exemplo.

No mês de setembro, o mestre Estevão Ribeiro veio a Brasília para difundir o conhecimento sobre o I Ching, num seminário exclusivo para os alunos do IFTB, o Instituto de Formação em Taijiquan de Brasília. Numa leitura histórica, explicou não apenas os princípios d’O Livro das Mutações como também a sua influência na prática das formas.

A dualidade dinâmica do Yin e do Yang está presente na arte do Tai Chi Chuan. Uma das associações pode ser feita entre os oito trigramas básicos do I Ching somados aos cinco elementos da alquimia chinesa, que são o metal, a madeira, o fogo, a água e a terra com as 13 posturas básicas criadas por Chang San-feng. E há ainda mais quando comparamos os 64 trigramas com vários outros movimentos.

Tai Chi Chuan pode ser traduzido como “Suprema Cumeeira” ou “Limite Absoluto” o que no Taoísmo, em cuja origem encontra-se a prática, podemos considerar o aspecto filosófico de “Elevação”, “Sublimação”, “Purificação”, que advém da transformação interna. O diagrama do Tai Chi Chuan também nos leva ao I Ching no momento em que remete à completude do universo dividido nos conceitos das forças extremas onde no ápice do Yin nasce o Yang, e no momento do extremo Yang recomeça o Yin.

E como trazer conceitos tão milenares como o I Ching e o Tai Chi Chuan para nossas vidas repletas de demandas onde a existência de um oráculo “mágico” é na maioria das vezes tudo o que esperamos para encontrar um rumo? Cultivando a idéias de que devemos estar aqui, presentes, buscando equilibrar e harmonizar o corpo e mente, até alcançar o espírito. É o que podemos chamar de manter o foco. Esta é a proposta nas aulas do IFTB.

Como no diagrama onde o Ying e o Yang se mesclam, alcançamos a consciência de que nem tudo é tão bom e nem tudo é tão ruim em nossas vidas. E como o próprio I Ching ensina, “embora o Céu e a Terra sejam vastos, e possuam a miríade de coisas em abundância, onde o trovão se move e os ventos circulam, enquanto acontece uma infinita variedade de mudanças e transformações, ainda assim sua substância original é absolutamente silenciosa, é o perfeito não-ser.”

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