2 de dez de 2010

TAICHI NOVAMENTE AJUDANDO A VENCER LIMITAÇÕES

Foto de Thais Mesquita para a Rev. Ethos
A Revista Ethos de OUT-NOV/2010 traz matéria apresentando o resultado do trabalho de professores de Taichichuan e de artes marciais com estudantes com deficiências e mostra como estas atividados os tem ajudado a vencer obstáculos funcionais e desafios.
"Artes marciais ajudam estudante surdocego a vencer obstáculos
Por: Thaís Mesquita

Após um ano e meio de treinamento, Wanderson contabiliza vitórias, graças à dedicação dele e dos professores que o acompanham

Perseverança, determinação e superação fazem parte do dia-a-dia de Wanderson Lustosa, 23 anos, estudante surdocego. No Centro de Ensino Médio 02 de Ceilândia – escola de ensino regular da rede pública de ensino do Distrito Federal, o aluno do 3° ano, se destaca entre os demais. [...]"


"Wanderson é surdocego com perda auditiva neurosensorial profunda, associada à baixa visão por retinose pigmentar, a Síndrome de Usher (ver box). Ele apresenta uma eficiência visual de aproximadamente 1,5m de distância, dificuldades de adaptação á iluminação, cegueira noturna e após exposição à luz do sol ou claridade intensa, apresenta dor de cabeça e coceira nos olhos. Ao andar, ele tem pouco equilíbrio e caminha a passos lentos.

“É um exemplo
para todos nós
que não temos
deficiência”
Wandeson está numa turma de 37 alunos, sendo 29 ouvintes, quatro com surdez leve e moderada e dois com surdez profunda. Estes contam com sinalizadores. Matriculado em todas as disciplinas, apenas as aulas de Português e segunda língua (inglês) são ministradas separadas dos alunos ouvintes por um professor especializado em LIBRAS/Letras. As demais disciplinas são dadas pelos professores, juntamente com alunos ouvintes, como auxílio do professor intérprete – para os surdos; e do guia intérprete – para Wanderson.

A professora Heide Gomes é a guia intérprete de Wanderson desde 2008, construindo uma relação não só profissional, mas de amizade, carinho e companheirismo. Além de atuar como guia intérprete e acompanhá-lo em sala de aula e saídas de campo, ela dá aulas de reforço para ele. Observando as dificuldades de comunicação e, conseqüentemente, de autoestima, procurou meios de ajudá-lo a superar barreiras encontradas nesses três anos letivos de convivência.

De origem genética, a Síndrome de Usher 
tem graus variáveis se associando
a surdez, presente já no nascimento,
com a perda gradual da
visão, que se inicia na infância ou
na adolescência. A cegueira, parcial
ou total, é causada pela retinose
pigmentar, mal que pode atingir até
não-portadores.
A doença afeta primeiro a visão noturna
e depois a periférica, das laterais,
preservando por mais tempo a
central. Causa também sensibilidade
a excesso de luminosidade.
Embora esta síndrome seja incurável,
é possível suavizar ou espaçar
alguns de seus efeitos. Nos casos
de surdez parcial pode-se atenuar
com cirurgias e aparelhos auditivos.
Os óculos também podem ser mais
adequados, incluindo os de visão
subnormal. A retinose pigmentar
costuma ainda ter problemas associados,
como catarata e edema
macular, que podem ser operados,
permitindo que a pessoa enxergue
melhor por mais tempo.
Fonte: Fio Cruz
Iniciativa
Do primeiro ano ao início do segundo, ele fazia e gostava muito das aulas de shotokan karatê-do, com George Einstein Sebata, professor de biologia e artista marcial com faixas pretas em kendô e karatê-do. As aulas eram voluntárias. Mas, o professor Sebata saiu da escola e ficou inviável dar continuidade ao treinamento. Porém, o professor Paulo Burgos prontificou-se a dar aulas de Taichichuan e ChinNa a Wanderson. As aulas são as segundas e quartas-feiras, no horário de coordenação dos professores Paulo e Heide, que se responsabilizaram pela iniciativa.

No início, Wanderson faltava muito àsaulas, devido às dificuldades que estava enfrentando, com relação a sua perda de visão. Para ele, locomover-se em dias escuros e chuvosos é difícil devido à perda da visão. Porém, sempre que necessário, a professora Heide leva-o em casa. “Acredito que o Taichichuan está ajudando o Wanderson a adquirir mais confiança e equilibrio. Não somente motora, mas em sua vida. Ele está mais seguro e vejo que até mesmo facilitou na sua independência para realizar algumas atividades”, declara a professora Heide Gomes.

O Taichichuan melhora o equilíbrio, acalma e aumenta a concentração. Já o ChinNa melhora o tato, pois é uma arte que consiste em dominar o oponente através de chaves, torções e imobilizações”, explica o professor Paulo Burgos.

Os professores avaliam os resultados das aulas: Wanderson está aprendendo a lidar com sua deficiência, integrando-se com surdos e ouvintes, aprendeu a jogar xadrez e até participa de campeonatos com cegos, aceitou o uso da bengala e outras formas de comunicação – libras-tátil, está aprendendo braile-tátil, sua autoestima melhorou cem por cento, entre outras coisas. “O que percebo neste aluno é a força e a alegria de viver. É muito lindo, é um exemplo para todos nós que não temos deficiência”, concluí a professora Heide Gomes."
In: R. Ethos, v.1, n.1, out./nov. 2010. pg. 10

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