25 de fev de 2011

O SHIFU

Artigo Publicado na revista TerceiroMilênio | JAN/20111

Shifu Jan Silbertorff ministrando correções em um
de nossos alunos, durante seminário em Salvador-BA
[Foto :: Soraya Lacerda]
Guru, dalai, sensei, shifu. Várias culturas têm um termo para definir aquele que guia, o mestre, o tutor. Nas artes marciais o termo assume uma condição ainda mais especial, a de que há a aceitação do ensinamento, por um lado, e do aprendizado, por outro. O Tai Chi Chuan atravessou milênios e chegou até nós graças a esse conceito, de passar para as gerações seguintes um aprendizado balizado por séculos de sabedoria. De mestre para discípulo.

O princípio do Tai Chi vem do Taoísmo. Os criadores basearam esta arte na observação da natureza, desde os animais à interação dos mais diversos elementos. Dai as três orientações: vencer o movimento através da quietude, a dureza através da suavidade e o rápido através do lento. Tão importante quanto aprender os movimentos é entender como os mestres foram construindo o Tai Chi desde Chen Wangting, Chen Changxing e Yang Luchan até chegar aos dias de hoje, com Chen Xiaowang.

É um pensamento chinês de que para um mestre é fácil reconhecer e escolher os bons discípulos, mas para um discípulo é difícil reconhecer e selecionar um bom mestre, pelo simples fato de que este ainda está no início da caminhada e não tem como discernir. Maior que o desafio de aprender a prática do Tai Chi, é ensinar essa arte.

Numa sociedade caracterizada pelo consumo desenfreado, onde quem tem dinheiro pode tudo, o Tai Chi se fortalece na própria dicotomia ensinada no princípio do Yin e do Yan. Nem todas as riquezas materiais no mundo são capazes de fazer com que o aluno aprenda. Somente com a humildade e dedicação ele pode conquistar o ensinamento.

Nessa caminhada, o Shifu é uma figura extremamente importante. Uma das características do Tai Chi é que, semelhante à arte da caligrafia, cada um tem a sua própria maneira de realizar as posturas, porém dentro de certo limite. Ao aproximar-se cada vez mais das formas corretas, orientado devidamente por um mestre, é possível entrar no fluxo do Qi e extrair a saúde, a paz e a tranqüilidade que a prática proporciona.

A relação mestre/discípulo, baseada em reciprocidade e aceitação, é tão profunda que o aprendizado ultrapassa o simples ensinamento. O Shifu ensina, transforma, transmuta, altera, permite revelar o que há de melhor naquele que se propõe a aprender. O Tai Chi Chuan desenvolve espiritualmente e faz renascer o discernimento e a percepção, ensinando como usar a serenidade para vencer as adversidades.

Sobre este mesmo tema, leia também...

SEMINÁRIOS DE TAI CHI CHUAN : IR OU NÃO IR?!

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Um comentário:

Sales disse...

Já tinha lido o artigo do Mestre Aristein Woo na Terceiro Milênio. Muito bom, como era de se esperar de um de nossos mestres.

Já havia algum tempo que não entrava em nosso blog, e foi com grande prazer que vi o artigo ilustrado (Shifu e aluno) com a foto de nada menos que Mestre Silberstorff, realizando valorosas coreções na forma que eu estava a aprender (Bahia). Obrigado! ;-)

Falando do artigo, creio que todos do IFTB devem sentir o mesmo que eu em relação ao Mestre Silberstorff: uma pessoa que realmente nos transforma quando nos demonstra e nos corrige no Tai Chi.

Outro ponto que me chamou a atenção no artigo, foi a comparação entre cada pessoa e suas posturas e a caligrafia. Tive oportunidade de poucas aulas de Shodo - Sanchio Negawa sensei, na UnB - e agora, conhecendo a meditação em pé, pude observar:
- quando preparamos o material e colocamos em ordem o papel de arroz, a tinta e o pincel, é como se estivéssemos preparamos nossa postura para a meditação em pé (Lembro-me das palavras do Mestre Magno: "...fisionomia serena... conexão... organizando...". Grande, Mestre Magno!!! Parabéns mais uma vez pelo IFTB!);
- quando preparamos a tinta (tem que esfregar um bloco sólido de nanquim em uma base de pedra com água) é como já se estivéssemos praticando a meditação em pé... cirulando internamente... planejando...;
- quando estamos utilizando o pincel para os Kanjis: é como se estivéssemos cultivando o fio de seda... energia em movimento!

Que felicidade em ler esse artigo... me remeteu a várias lembranças.

Abraços! Obrigado novamente, por ilustrá-lo com uma foto em que estou presente ao lado de tão ilustre Mestre!