24 de ago de 2015

O FAJIN NO TAIJIQUAN - Por Howard Choy

Nós ficamos sempre muito felizes em nos deparar com gestos que provam que o mundo do Taiji é realmente uma caixinha de surpresas boas... Localizamos recentemente esse interessante artigo sobre Fajin. Ele detalha exatemente o que nossos professores têm abordado nas aulas, principalmente do estilo Chen. A relevância do texto nos levou a entrar em contato com o autor, o Mestre Howard Choy, para conhecê-lo um pouco mais e também para pedir autorização para traduzir e compartilhar seu texto com vocês, aqui em nosso site. Depois de trocarmos alguns e-mails Mestre Choy se mostrou não só uma pessoa especial, como também um generoso professor, ao simplesmente dizer: "Somos todos 'Tong Dao' [aqueles que trilham o mesmo caminho], logo fiquem a vontade para traduzir e compartilhar o artigo." E assim estamos aqui, mais uma vez dividindo conhecimento com vocês! Vale ressaltar que fica aqui apenas o 'mapa da mina'. Para se chegar ao 'tesouro', o praticante deve seguir na prática diligentemente. E a orientação e o acompanhamento de seu Shifu ao longo do caminho é essencial para que se alcance o sucesso, como bem frisa Mestre Choy. A ele, nosso muito obrigado por mais esse precioso ensinamento. Xie Xie!

Publicado na TAI CHI Magazine,
Vol. 34, No. 1, Spring 2010
Tradução: Soraya Lacerda

A experiência já mostrou que se alguém quer dominar todo o espectro de habilidades do Taijiquan - incluindo aspectos marciais [arte da luta] e civis [saúde e relaxamento] - este deve aprender Tuishou e Fajin, bem como as formas...

No Tuishou, o praticante aprende não somente o Tinjin [escutar o Jin] e o Huajin [neutralizar o Jin], mas também o Fajin [contra-atacar utilizando seu próprio Jin], para ganhar iniciativa.

Este artigo tentará então descrever o que é o Fajin e como alguém pode treiná-lo e adquirir sua habilidade na prática.

Comecemos pelo significado de Fajin. Em chinês, o caractere 'Fa' significa, literalmente, 'emitir', 'descarregar' e 'mandar para fora'. 'Jin' já é um pouquinho mais difícil de traduzir literalmente, uma vez que seu verbete no dicionário – 'vigor/força' – não expressa totalmente suas nuances, uma vez que há uma distinção clara entre a 'força' propriamente dita [, em pinyin] e a 'força' em 'Jin', no Taijiquan.

Essa diferença é melhor definida por Xiang Kui em seu livro “Quanshu” [As Artes Marciais], publicado pela primeira vez em 1916 [o 5º ano da República], no qual ele escreveu “a Força concentrada nos ombros e nas costas é chamada de 'Lì' e a Força que capaz de permear todos os 4 membros do corpo é o 'Jin'." Logo, 'Lì' é apenas uma 'força parcial', enquanto 'Jin' e a 'força total', completa, que é gerada por todo o corpo. Quando apenas uma parte do corpo é usada, a força gerada é limitada, enquanto que quando todo o corpo é utilizado, você pode exprimir todo o seu potencial de força. Este então é o objetivo principal de seu treinamento: buscar usar o 'Jin' e evitar o uso do 'Lì'.

No clássico do Taijiquan, “A Canção das Treze Posturas”, a seguinte analogia é utilizada:

“Acumular o ‘Jin’ [Xujin] é como puxar
a corda de um arco [do arco-e-flecha];
descarregar o ‘Jin’ [Fajin] é como soltar
a flecha do arco, e deixá-la ir.”

E continua...

“a raiz [do Fajin] está nos pés e ele
é disparado dos pés,controlado pela cintura
e transmitido para a ponta dos dedos.”

Estes dois trechos não só explicam, mas também já nos dão boas dicas de como executar o Fajin.

COMO EXECUTAR O FAJIN
1. Acumule o Jin Escrever sobre o treino de Fajin, me traz boas lembranças. Eu me lembro de quando o GM Chen Xiaowang estava morando comigo em Balmain [Sidney, Austrália], nos idos dos anos 80, e nós treinávamos num parque local, todas as manhãs. Eu queria aprender como executar o Fajin e meu amigo Ahtee Chia, que trabalhava em meu escritório de arquitetura naquela época, se juntava a nós no treino, já que ele também era praticante de Taijiquan.

A parte divertida de nosso treino de Fajin era exatamente o fato do Mestre Chen Xiaowang pedir para que Ahtee praticasse com socos ininterruptos, enquanto que para mim ele pedia que permanecesse numa postura estática, com grande parte do meu peso sobre uma das pernas, mantendo meu punho junto à lateral do meu corpo, o que para mim pareciam horas a fio!

No início, permanecer nesta postura era extremamente doloroso, até que o Mestre Chen lentamente corrigia minha postura, especialmente as partes inferiores do meu corpo: meus tornozelos, meus joelhos, meu bumbum, meu quadril, minha cintura... e assim a dor lentamente cedia.

E ele não parava de repetir para mim: “Fang song” [“Relaxe e deixe a tensão sair do seu corpo”], e “Qi xia dantian” [“Deixe o Qi ir para o Dantian inferior”], para me ajudar a relaxar na postura do Zhanzhuang [Abraço da Árvore], só que com grande parte do peso em uma das pernas.

Eu perguntei a ele o porquê das duas formas diferentes de treino. E ele disse: “Ahtee não praticou muito Kung Fu antes, mas você praticou toda a sua vida, logo, sabe muito bem como dar um soco, só não sabe como colocara a ‘bala na agulha’.”

"'Colocar a bala na agulha?', o que o senhor quer dizer com isso?" - Eu perguntei. Ele sorriu e respondeu: “Fajin é como disparar uma arma; primeiro você tem que colocar a bala na agulha, do contrário, não há o quê disparar!

Na época, eu não me dei conta de que, naquele momento, ele fazia uma analogia moderna, comparando o Fajin ao disparo de uma arma, assim como o disparo da flecha, mencionado na citação do clássico mais acima.

Para emitir/ disparar [Fa] o Jin, precisa-se primeiro aprender a armazenar [Xu] o Qi. O Qi, neste caso, não é uma força misteriosa, mas simplesmente a conjunção de boa postura/movimento, respiração e intenção.

Então, o que o Mestre Chen estava fazendo comigo, era exatamente trabalhar na minha postura para que todo o peso do meu corpo ficasse 'amazenado' devidamente em uma perna, antes do 'disparo'.

Isso até pode parecer uma tarefa fácil, mas eu era como muitos praticantes, então: levava meu joelho muito à frente, enquanto 'sentava' com meu peso sobre a perna. Sem perceber eu também tendia a inclinar levemente o meu corpo para trás, e algumas outras vezes até um pouco demais para frente. No lugar de abrir e relaxar os quadrís, eu girava meu tronco em excesso, acentuando a pressão no joelho sobre o qual estava o peso. Outro erro comum é contrair o cóccix, na intenção de manter reto o final da coluna. Essa perda da curvatura natural do final da coluna tende a enfraquecer o alinhamento do corpo e compromete o 'colocar a bala na agulha' como bem ressaltava o Mestre Chen. Sem o corpo estar totalmente conectado, qualquer tipo de soco que dermos, seria parcial e teria apenas , e não o Jin.

Para se ter o Jin, todo o corpo precisa ser utilizado, tanto interna como externamente. Mestre Chen chamaria isso de “usar a forma e o movimento externos para iniciar e ativar o Qi interno” e só, então, “usar o Qi interno para acelerar a forma externa”.

O Qi interno é algo que não podemos ver, mas podemos sentir quando o corpo está alinhado devidamente e não resiste à gravidade.

Assim, a correta forma externa do corpo pode levar ao 'armazenamento' do Qi interno, por meio da sinergia corpo e mente, e quando corpo e mente estão integrados, a forma e o movimento externos serão consequentemente fortalecidos.

A mente fica agitada quando não se está relaxado, ou 'fang song'. Então para acalmar a mente, pode-se fazer uso do relaxar consciente da tensão do corpo, expirando longamente, e deixando que seu centro gravitacional afunde, daí também o 'qi xia dantian', ou “deixar que o Qi afunde para o Dantian inferior.”

Mas isso só tem como acontecer quando o corpo está devidamente alinhado com a gravidade, de modo que a visível forma externa e o invisível Qi interno andem juntos, de mãos dadas.

Uma vez que o Qi é algo interno e intangível, o que precisamos trabalhar é a forma externa e tangível. Daí o fato de Mestre Chen trabalhar com minha postura por horas, ajustando cada parte do meu corpo minuto a minuto, até atingir a configuração exata, de forma que eu pudesse sentir meu Qi cada vez mais fortalecido e conectado no meu corpo.

Ele, muitas vezes, me pedia para manter determinada posição e, então, testava minhas conexões internas fazendo pressão em diferentes partes do meu corpo, certificando-se que a força que ele exercia podia ser transmitida, sem empecilhos, até o chão.

Sem este treino dedicado e individualizado, é um pouco difícil de fazer progressos na execução do Fajin. Às vezes, a prática do Tuishou ajuda, uma vez que esta é também uma forma de testar conexões internas, com base num conjunto de regras estabelecidas.

No Tuishou, as partes de nosso corpo devem funcionar como fios condutores, conduzindo a força para o chão, de forma que nosso oponente na verdade não nos empurre, mas sim o próprio chão.

Ao exercer o – força parcial – nosso corpo se fragmenta e o Qi interno não está mais completo porque diferentes partes de nosso corpo não estão sincronizadas entre si, e assim seremos deslocados.

Isso leva a uma tensão extra, e quando estamos tensos tendemos a prender a respiração e isso piora todo o cenário. Uma resposta melhor ao ser empurrado é exatamente relaxar e abrir as articulações de forma a armazenar a força do oponente na perna de trás, e só então re-disparar esta mesma força num contra-ataque. Isso só é possível quando não se está tenso e não se perde a integridade da estrutura corporal ao ser empurrado.

2. Dispare o Jin Mais acima eu citei o clássico: “a raiz [do Fajin] está nos pés e ele é disparado dos pés, controlado pela cintura e transmitido para a ponta dos dedos.” Vale ressaltar aqui que por 'dedos' devemos entender que qualquer parte do corpo deve ser capaz de golpear com Fajin.

Então, a primeira coisa que temos que aprender, depois de compreender como armazenar o Qi, é com dispará-lo por meio dos 38 movimentos do Taijiquan da Família Yang, e isso inclui os oito Jin’s: Peng, Lu, Ji, An, Li, Zhou e Kao.

Por exemplo, com o soco no movimento 'Voltar-se, Bloquear, Desviar e Socar', dá-se um passo à frente para defletir o avanço do oponente, então volta o peso para a perna de trás para armazenar nela o Jin, antes de dispará-lo para frente.

Neste processo, a cintura primeiro gira para a direita e o corpo se abre levemente para armazenar o Jin na perna direita; isso para afundar nosso peso em direção ao chão e preparar o alinhamento de nosso corpo para a ação. O mesmo que 'colocar a bala na agulha'. O punho direito segue, então, a rotação da cintura e se volta rapidamente da direita para a esquerda. Ao mesmo tempo, a reação do peso do corpo contra o chão permite que a força armazenada percorra a perna, seguindo da sola do pé, passando pelo quadril, cintura, costas, ombro, braço, até chegar ao punho. Ao percorrer esse caminho o corpo tende a retesar-se inicialmente, para depois abrir-se e disparar o Jin.

Para transformar a força rotacional em força tangencial, a perna da frente é retida, estabilizando a rotação para construir uma base sólida. – diferente, por exemplo, da Torre Eiffel, cujo topo balança em círculos, enquanto sua base está bem fixada ao chão.

Somente com uma mente focada, juntamente com as todas as conexões internas das articulações, pode-se concentrar todo o Jin do corpo no punho, para se projetar um poderoso Fajin.

Os dois passos mencionados acima, 'Acumule o Jin' e 'Dispare o Jin', podem ser comparados a uma mola sendo pressionada fortemente contra uma superfície e depois sendo liberada a seguir.

O corpo humano também pode funcionar como uma mola, armazenando a inércia de seu próprio peso e/ou da força aplicada por um oponente contra o chão, e liberando-a em seguida para gerar o Fajin.

Entretanto, isso só se torna possível se o corpo está relaxado, com a sua forma e configuração mantendo a integridade de sua estrutura, juntamente com a força gravitacional, gerada quando se é 'pressionado'.


* Master Howard Choy [Cai Hong 蔡洪] nasceu na China há mais de 60 anos e migrou para a Austrália com sua família, ainda criança. Longe da terra natal, ele conseguiu manter vivas suas raízes de língua e cultura envolvendo-se com o Taijiquan, o Qigong, o Choy Lee Fut Kung Fu e o Feng Shui, por toda a sua vida. Mestre Choy vive hoje na Alemanha onde comanda um escritório de arquitetura, ensinando e dando seminários das artes que domina por toda a Europa. Seus conhecimentos foram adquiridos graças aos generosos ensinamentos de seus mestres: Master Li lu-Ling, Master Chen Yong-Fa, Master Yang Sauchung e Master Chen Xiaowang, sendo que desses dois últimos é discípulo direto.
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Um comentário:

Robson disse...

Olá Soraia e equipe IFTB.
Muito bom esse texto!
Parabéns pelo excelente trabalho.