13 de mai de 2012

O TAI CHI CHUAN E A EDUCAÇÃO

Foto :: Waldemir Barreto
Artigo publicado no Jornal Lotus Bem Estar - ABR/2012

Definir o conceito de educação é um desafio tão grande quanto o de educar. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação (Lei 9394/96) explicita em seu primeiro artigo que “A educação abrange processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”.

Mas é possível transcender essa definição quando se admite que educar também passa pela construção de novos conhecimentos sobre si mesmo e sobre o mundo, pelo o crescimento pessoal e pela melhora do relacionamento humano. Educar é um processo constante e contínuo e cada sociedade tem uma maneira própria de desenvolver um sistema buscando formar indivíduos melhores.

A China, por exemplo, surpreendeu o mundo em 2010 quando a província de Xangai tirou o primeiro lugar em todas as áreas aferidas (matemática, ciências e leitura) no mais importante e respeitado teste internacional de qualidade educacional, chamado Pisa. Além das disciplinas tradicionais, os chineses praticam o Wushu nas escolas públicas ou particulares durante as aulas de educação física. Wushu significa literalmente “Arte da Guerra”, mas quando se analisa o par de caracteres que compõe o termo encontra-se que Wu significa “Por fim a violência” e Shu, “Arte” ou “Método”. Logo, Wushu é um “Método de por fim a violência”.

As artes marciais têm como objetivo propiciar o desenvolvimento psicomotor amplo que vai desde o raciocínio lógico e a socialização até a resistência física e a coordenação motora geral. Na China centenas de estilos de arte marcial estão catalogadas e são classificados em duas escolas: Waijia ou escola externa, e Neijia ou escola interna. Na primeira se incluem a maior parte dos estilos de Wushu e na segunda os estilos tradicionais, como o Tai Chi Chuan, que considera para a prática a consciência do espírito e da mente.

Boa parte das artes marciais chinesas estimulam os valores morais, éticos, de valorização pessoal e de autoconhecimento e está ligada às práticas medicinais há muito consolidadas e às três maiores correntes filosóficas do Extremo Oriente – o Confucionismo, o Budismo e o Taoísmo.

Um dos maiores divulgadores das artes marciais no Ocidente, Bruce Lee, iniciou o estudo do Wing Chun aos 13 anos de idade, mas estudou diversos tipos de artes marciais ao longo de sua vida como o Tai Chi Chuan. Aprendeu o inglês e cantonês, se formou no Edison Technical School, de Seatle e recebeu o título de bacharel em Artes em Filosofia pela Universidade de Washington. Pesquisador sobre artes marciais, Lee dedicou sua vida à análise das teorias e práticas de sistemas de luta. Criou o estilo chamado Jeet Kune Do (O caminho que intercepta o punho/pé) essencialmente baseado na filosofia advinda da corrente Taoísta, com influências do Budismo Zen e de Jiddu Krishnamurti.

Estes dois exemplos nos fazem refletir sobre o preconceito que ainda pode existir a respeito das artes marciais. O país onde a prática se ensina na escola mostra para o mundo que bons índices de educação não são necessariamente realidade apenas em países ricos como Finlândia ou Canadá. No Brasil, onde se busca índices aceitáveis de educação, pode-se sim estimular desde a mais tenra idade a disciplina e o desenvolvimento por meio de técnicas como o Tai Chi Chuan.

Lao Tsé, a quem se atribui a autoria do Tao Te Ching, o "Livro do Caminho e da Virtude", já apregoava que “aquele que vence os outros é forte, mas aquele que vence a si mesmo é poderoso”. Talvez o lendário Mestre quisesse nos fazer pensar a respeito da educação como um caminho onde o maior desafio é oferecer as ferramentas para que cada um possa, antes de tudo, vencer a si mesmo.

Diretor do IFTB

Um comentário:

Sales (Saresu) disse...

Boa noite, Mestre Magno..

Compartilho com você a questão do penúltimo parágrafo do texto: o preconceito em relação às Artes Marciais. Os exemplos que me acompanham nos quase 30 anos em que pratico e estudo artes marciais são inúmeros. Lembrando os mais recentes:
- "E agora com seu filho recente? Vai ensiná-lo a lutar? Ela vai fazer medo em muita gente!"
- "Não mexa com o Sales, ele acabou de assinar o memorando... cuidado que ele te 'dá um Kung Fu'!" (e olha que nem treinei Wushu!);
O último: "Quem olha e conhece você nem imagina que é um lutador".
Veja só que idéias? São todas de pessoas próximas, mas que nunca estiveram comigo em um treino ou prática marcial. Claro que não fazem por mal. Em qualquer Dojo dos quais já treinei ou experimentei algum treino (Karate-Do, Judo, Tai Chi Chuan, Kenjutsu, Aikido ou Boxe) acredito que tenham visto que não sou lutador, que simplesmente gostaria de aprender como aquele sistema de Arte Marcial pode ser benéfico... de que forma podemos nos exercitar, como - culturalmente - podemos crescer com essas artes. Fiquei meditando a respeito do fato e percebi que os comentários tem duas origens: a primeira é que, por eu não assistir TV a 11 anos, não entendo muito das piadas do dia a dia. Sou realmente um grande desinformado daquele meio de comunicação. Segundo, existe o preconceito e a propaganda de que quem pratica Artes Marciais é sempre um lutador.
Conclusão: gentilmente essas pessoas escolheram o assunto que sabem que tenho alguma experiência para fazer a brincadeira do dia a dia.
Sempre acredito que a brincadeira foi bem intencionada. A única coisa que me preocupa é o termo "lutador" como foi usado. As pessoas projetam "lutador" como aquele que subjulga o próximo, que usa suas habilidades para machucar etc...
Realmente essa faceta é a mais divulgada e palpável. Não é culpa das pessoas pensar assim. Tenho pacientemente, e de forma o mais didático possível, mostrar que as Artes Marciais é um ótimo caminho para a saúde físia e mental, um momento de aprendizado em como se respeitar e respeitar o próximo. Tenho feito isso quando tenho oportunidade de frequentar o Karate-Do Dojo, onde pratico a quase 30 anos, quando ministro a prática do Tai Chi Chuan, quando encontro os colegas com os quais treinei Judo, quando ajudo a um colega ou amigo a usar o saco de boxe para se exercitar etc...
EDUCAÇÃO: precisamos dela para demonstrar que Artes Marciais é uma atividade, um caminho, muito maior do que esse que tem sido veiculado pela mídia - uma arena de gladiadores -, que é um lugar onde as crianças podem aprender a se entender e entender os outros melhor, onde os jovens podem descobrir que podem realizar mais do que imaginam, onde os mais idosos podem se sentir mais vigorosos e alegres. Creio eu que essa sim é a verdadeira "luta"! Prefiro ser chamado de "lutador" se esse "lutador" for pelas Artes Marciais como ARTE, como CAMINHO.
Aproveito para agradecer ao TaoLu por existir. Pois foi no ex-IFTB, agora TaoLu, onde encontrei "lutadores" (desde o iniciante de 1º dia, até o mestre mais experiênte) por uma Arte Marcial mais saúde, mais irmã, mais acolhedora.
Parabéns pela realização do sonho, Mestre Magno.! Um sonho que agora cresceu para melhor: TaoLu.
Longevidade e saúde, sempre.