18 de jul de 2012

O BALÉ DO TAI CHI

Por Magno Bueno
Diretor do Taolu
Artigo publicado no Jornal Lotus Bem-Estar | JUL/2012

Gosto de ouvir os meus alunos. Um a um traz consigo suas experiências, suas maneiras de ver a vida, suas histórias. Em cada contato um aprendizado. Doutora Silvia é uma das nossas alunas no instituto. Dedicada, doce, inteligente. Foi levada ao IFTB, presumo eu, pelos mesmos motivos que a maioria dos estudantes: uma imensa vontade de partilhar seu conhecimento para fazer deste mundo um lugar melhor. Ouvi dela a seguinte história....
 
A Dra Silvia Bicudo é médica homeopata num dos muitos postos de saúde do Distrito Federal, e tão logo aprendeu os 13 movimentos, dedicou-se a ensinar a arte do Tai Chi Chuan debaixo das árvores do postinho. Aos poucos, os curiosos, os desconfiados, os animados, todos foram chegando. E lá foi doutora Silvia dividir o que sabia. Logo, os 13 movimentos já se tornaram fácil para os alunos, na sua maioria, senhores um pouco mais prá lá da terceira idade.
 
Doutora Silvia tinha de saber mais. Então lá foi ela, se matricular no IFTB. Três anos depois e com um domínio dos 24 movimentos, dos 19 movimentos estilo Chen, da espada Chen de 16 movimentos e primorosa estudante do Lao Jia, continua ela com seus alunos maduros, dos quais fala com muito orgulho, aliás. Faço um parêntese na narrativa para registrar os olhinhos da doutora Silvia brilhando quando fala da evolução dos seus maduros-alunos.
 
Professor Magno Bueno  (centro) e alunos do IFTB,
recebendo a certificação Duan Wei em Chenjiagou - China (2011)
Dra Silvia é a segunda a partir da direita.
Foto :: Roberto Togawa
A vitalidade, a ausência das dores, o equilíbrio, proporcionados pela prática do Tai Chi. E ai o pensamento voa longe e sinto muito orgulho por seguir os passos do mestre Woo, que há quase quatro décadas tomou para si a missão de dividir seu conhecimento da arte, contagiando tanta gente, que hoje é possível ouvir essas histórias.
 
Voltemos à narrativa. Estava Dra Silvia em mais uma manhã de Tai Chi com seus alunos debaixo das árvores no posto de saúde quando o diretor recém nomeado observa a movimentação. Após alguns dias de análise, ele que também é estudante de artes marciais dá o seu veredicto: achei que esse tal de tai chi fosse um balé, agora posso afirmar com certeza de que é uma excelente arte marcial, com movimentos de ataque e defesa. Incrível.
 
Mas pensando bem, chamar o Tai Chi de balé não é todo errado. Conta o lado lendário que o velho monge Chang San Feng, aproximadamente 700-800 anos atrás, viu nas montanhas Wudang uma garça lutando com uma cobra. A garça era sempre dura, a cobra tentava render e seguir a garça. Sem resistir, a cobra não perdeu sua vida para a garça. O duro estava sendo controlado pelo suave. Surgiu assim o Tai Chi.
 
Quem vê a leveza do balé não imagina a disciplina e trabalho árduo dos bailarinos fora do palco. Quem vê os praticantes de Tai Chi não imagina o trabalho interno que ocorre, transformando não apenas o corpo, mas também a alma. Tente manter a energia leve e sensível no topo da cabeça, afunde o peito, os ombros, os cotovelos e relaxe a cintura; sinta o cheio e o vazio, ou seja, onde está o peso do corpo; use a mente e não a força; harmonize a parte inferior do corpo com a parte superior e o interno com o externo; e fique tranqüilo.
 
Como defende o princípio do Tao, é fácil, mas não é. Só almas obstinadas como a doutora Silvia, seus alunos, os aprendizes do IFTB e tantos outros que nem conheço, para se dedicar ao desafio. Você também está convidado a fazer parte desta corrente. Para ser, como dizemos entre os praticantes, semelhante a um grande rio correndo incessantemente, flexível na aparência, mas poderoso na essência.
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