17 de abr de 2015

A MATEMÁTICA DA LAO JIA

Professores do Taolu e
Instrutores Certificados no Nível 2 pela  WCTA-Br


"Excelência é uma habilidade conquistada através de treinamento e prática. 
Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. 
Excelência, então, não é um ato, mas um hábito."
- Aristóteles -


A Lǎo Jià Yī Lù (老架一路– Forma Antiga 1ª Parte) é reconhecidamente a forma mais antiga de Taijiquan que se tem registro histórico. Dela derivaram-se várias outras formas, não somente do próprio estilo Chen, como também de outros estilos (Yang, Wu, Wu-Han, Sun).

Mural ilustrando os movimentos da Laojia
Templo de Chen Wanting - Chenjiagou/China
Assim sendo, a Lǎo Jià, juntamente com a Lǎo Jià Èr Lù (老架二路– Forma Antiga 2ª Parte) - também conhecida somente com o Pào Chuí (炮捶– Punho de Canhão) -, foi um divisor de águas na evolução do Taiji ao ser criada por Chen Chang Xing (14ª geração), que condensou nestas duas formas, as sete outras criadas por Chen Wang Ting (9ª geração). Ambas, combinadas, constituem a base do sistema de Taiji do estilo Chen, concentrando em seus movimentos os princípios desta arte marcial interna, bem como os fundamentos do Zhàn Zhuāng (站椿 – Meditação de Pé) e do Chán Sī Gōng (纏絲功 – Exercícios da Seda).

Dada sua importância é que a Lǎo Jià assume o posto de forma base dos estudos do Taiji estilo Chen. O aprofundamento e a evolução em sua prática devem ser levados adiante pelo praticante, com constância e diligência.

O próprio Chen Chang Xing já dizia:

“Não existem coisas simples no mundo. 
Tão pouco há coisas difíceis. 
Para se atingir o Gōng ( – Excelência), há que se exercitar 
continuamente, sem exageros ou pressa, 
pois as coisas devem evoluir passo a passo".

E a Lǎo Jià exige este desafio de estudo e prática constantes, não só por ser uma forma longa (75 movimentos), mas também pela sua riqueza em fundamentos substanciais. Nós, enquanto multiplicadores desta prática, devemos criar um laço profundo e íntimo, não somente com seus fundamentos, princípios e execução, mas também com cada um de seus movimentos.

Por isso, deixaremos a prática para o nosso treino individual e/ou aquele orientado por nossos mestres, e vamos estreitar aqui o vínculo com a Lǎo Jià, explorando seus números e curiosidades, buscando uma familiaridade maior como faríamos com alguém a quem estamos cortejando em busca de aproximação e cumplicidade... Como faríamos para conquistar aquele companheiro para vida toda.

A Lǎo Jià, conforme conhecemos hoje, possui ao todo 75 movimentos. No entanto, alguns praticantes contabilizam apenas 74, ao combinar os movimentos 53 (Shuāng Bǎi Lián) e 54 (Diē Chà).

Em um de seus vídeos sobre a Lǎo Jià, o GM Zhu Tian Cai (um dos “Quatro Tigres Durados”, guardiões do estilo Chen, juntamente com Chen Xiao Wang, Chen Zheng Lei e Wang Xian), relata, inclusive, que houve um tempo em que o primeiro movimento (Yù Bèi Shì) e o último (Shōu Shì) também não eram contados.

Para nossa matemática aqui, consideraremos que a forma possui 75 movimentos, sendo que a primeira parte tem 18, a segunda tem 20, a terceira tem 17 e a quarta também tem 20.

A Lǎo Jià pode ser executada de forma bem lenta ou bem acelerada. Mantendo uma execução em velocidade média, podemos executá-la em torno de 23 minutos, o que daria em média 3 movimentos/minuto (caso todos os movimentos tivessem a mesma extensão, claro).

Dos seus 75 movimentos, 29 são únicos e 14 se repetem:
  •  Dān Biān (7x),
  •  Liù Fēng Sì Bì (6x),
  •  Jīn Gāng Dǎo Duì (4x),
  •  Yǎn Shǒu Gōng Quán(4x),
  •  Xié Xíng (4x),
  •  Bái Hé Liàng Chì (3x),
  •  Shàng Sān Bù (3x),
  •  Yùn Shǒu (3x),
  •  Lǒu Xī (2x),
  •  Lǎn Zá Yī (2x),
  •  Gāo Tàn Mǎ (2x),
  •  Dào Juǎn Gōng (2x),
  •  Shǎn Tōng Bèi (2x) e
  •  Shuāng Bǎi Lián (2x).


Desta lista podemos observar que os movimentos que mais se repetem, Dān Biān e Liù Fēng Sì Bì, são também os únicos movimentos que aparecem nas 4 partes da forma.

Estes dois movimentos, juntamente com o Jīn Gāng Dǎo Duì, são os que mais se repetem em uma única parte: Jīn Gāng Dǎo Duì se repete 3x na primeira parte e o Dān Biān e o Liù Fēng Sì Bì se repetem, também 3x, na terceira parte.

Em toda a forma temos 5 movimentos ‘batizados’ com nomes de animais:
  •  Mov. 07/57 – Bái Liàng Chì (Garça)
  •  Mov. 17 – Qīng Lóng Chū Shuǐ (Dragão)
  •  Mov. 28/64 – Gāo Tàn Mǎ (Cavalo)
  •  Mov. 55 – Jīn Dú Lì (Galo)
  •  Mov. 67 – Yuán Hóu Xiàn Guǒ (Macaco)

   
Esperamos que esse artigo possa ter trazido uma oportunidade de olhar para a Lǎo Jià de uma forma interessante e curiosa. Quanto mais a observarmos em detalhe, mais veremos sua beleza, fluidez e leveza... Para assim executá-la, sempre como se renovássemos nosso laço, a cada repetição... Cada Lǎo Jià, uma Lǎo Jià diferente. Cada Dān Biān nunca o mesmo Dān Biān.

E assim, como dizem os chineses, veremos “sempre a mesma primavera, nunca as mesmas flores”.


Publicado na Revista anual
da WCTA-Br (2014), pg. 13
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